sábado, 1 de novembro de 2008

oi, sou eu!!!!

Um vaso de flores de vidro, flores amarelas pequenas. O sol de fim de tarde entra pela fresta das cortinas e ilumina metade do bouque e um pedaço da mesa de madeira escura, típica dos anos oitenta. Som de água da torneira vem da cozinha. Uma brisa balança as cortinas de tecido áspero ampliando a claridade. O telefone toca estridente, a água da torneira para.
- alô. Alô! Ah! Sim. Amanhã às duas, confirmado.
Abre uma agenda, anota e põe o fone no gancho.Se senta na poltrona próxima a mesa confere a agenda, olha a sala em volta, tudo parece novamente velho. Incontinente possibilidade de encontrar algum sinal esquecido da vida anterior. O frescor de uma nova vida em contrapartida. O medo e a esperença diluem as emoções. A dor e o alívio. As possibilidades que se abrem e as possibilidades frustadas que ficaram para trás. O novo é sempre uma injenção nos animos, retomar seus desejos e sua vida, como raspar o reboco, voltar a estrutura e se refazer, renascer, reviver ou morrer? Já estou com mais de trinta , a morte se anuncia agora como uma realidade, sai de seu posto de ficção e entra no rol das personagens possíveis e prováveis, ou melhor a mais possível e provável, ou melhor ainda, a única realmente possível e inquestionavelmente provável. Estou subindo no telhado... pensamentos autodestrutivos o que fazer com eles? Embrulhar para presentes e entregar para minha mãe! Ser prática, voltar a lavar a louça, pagar a conta de luz, arrumar um animal de estimação, um gato, uma presença discreta e amorosa, um pouco cínica, animal dubio, por que não prefiro cães com seu amor incondicional? (embrula e entrega a mamy!!!!) hoje mais um dia sem rumo. Mais um dia no meu relógio biologico, comer dormir pensar, mente corrompida! Retomar o rumo, talvez um pouco de álcool me leve a celebração da vida! Vou abrir um vinho e brindar a minha, a minha, a minha... me falta asunto comigo mesma, preciso encontrar alguém antes que eu fique esquizo, neurótica, bucólica, sem rumo limpando as janelas da minha casa para não ter que ver a vida.
Hoje vou à luta, fazer as unha, vermelho sangue, guerrilheira urbana, bela e sensível, corajosa, questionadora, uma lista de adjetivos não me convence de nada. Pára! Ligo o carro e sigo em direção à noite pontilhada de postes. Assisto à uma peça, amigos em cena amores na plateia! A concretude da arte me salva por alguns instantes e já me esqueço de mim e alívio a vista! Aplausos intermináveis, amor de outra época, quem fui eu, e o que resta de mim em mim mesma hoje, o que restará de mim quando tudo acabar? Porque tudo acaba, este é o consolo, grande forte e quente. O sexo que nos traz ao reino animal. Nós seres tão civilizado, educados nos esfregando, gemendo e suando como bichos. Alívio de novo, sou um ser, animal, algo de real nesta mente borbulhante e disforme. É preciso sair desta situação, um confronto com o passado pode ser fatal!
Voltar a solidão da cápsula de um carro, lembrar que o presente de hoje será um passado esfumaçado amanhã, e será que terei referências de mim mesma para saber se me lembro de quem fui ou se só imagino quem sou ontem?
Efemero, é a palavra de ordem. Eu sou êfemera e tudo que vier de meu ser é produto da minha efemeridade e destruição.

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